Terça-feira, 9 de Março de 2010
A classe média que pague a crise

As primeiras nove páginas do Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) foram conhecidas ontem e não trouxeram boas notícias.

 

A classe média vai pagar mais impostos, a economia vai continuar a divergir da média europeia, o desemprego mantém-se acima dos 9%, a dívida pública passa os 90% do PIB e o défice desce mas o Governo não toca no monstro do Estado. Como se escreveu neste coluna ontem, o Executivo socialista foi pelo caminho mais fácil e apresentou um PEC ‘light' para si. O seu esforço na dieta é fraco. A classe média é que vai ter de apertar o cinto e pagar a crise.

 

A equipa das Finanças, liderada pelo ministro Teixeira dos Santos, está particularmente pressionada. Os investidores internacionais, as agências de ‘rating' e a Comissão Europeia esperam respostas e, depois dos acontecimentos na Grécia, a paciência e tolerância são curtas. Portanto, o ministro das Finanças tem de apresentar medidas que garantam uma redução do défice rapidamente, mesmo com a economia em ponto morto. E isso é conseguido.

 

Ainda assim, exigia-se mais ao PEC. Não basta ver a eficácia das medidas, é preciso analisar a sua qualidade. Os impostos sobem e a carga fiscal também, ao contrário do que tinha afirmado o Governo. Há uma nova taxa no IRS (45%) e mais de um milhão de famílias vão descontar menos despesas, acabando a pagar potencialmente mais impostos.

 

Do lado da despesa, há poucos cortes - resumem-se aos consumos intermédios que têm pouco peso nos gastos totais. As palavras-chave são congelar e adiar. Congelam-se salários da função pública e adiam-se duas linhas do TGV. Ou seja, empurram-se os problemas. Em 2013, quem estiver no poder que desfaça os nós górdios. Esta falta de estratégia é precisamente a grande fraqueza do PEC. É aqui que revela a sua falta de ambição. Para acabar com o monstro é necessária mais coragem política e um plano mais radical como este Governo já fez no passado, por exemplo na Segurança Social.

 

Por fim, não consegue relançar o crescimento económico. É um PEC resignado ao empobrecimento do país relativamente à média europeia. Por isto, o Governo vai ter dificuldade em comunicar este PEC. Ainda assim, a bem do interesse nacional, é bom que consiga "vender" este programa. Para piorar a situação, só faltava uma diminuição da notação de risco pelas agências de ‘rating' ou um cartão amarelo de Bruxelas. A ver vamos.



publicado por ascurvasdaeconomia às 10:33
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2 comentários:
De Sonia a 22 de Julho de 2010 às 15:16
Sendo este o panomara geral, visível e realista, continuo sem perceber porque é o Estado intocável??? Como se pode permitir que a despesa aumente, e se exija ao povo tantos sacrifícios, sendo este mesmo povo SEMPRE o mais prejudicado??!!Infelizmente os partidos são todos farinha do mesmo saco, e o povo o mesmo "pau mandado" de sempre.É vergonhoso e escandaloso todos sabermos de tudo isto e continuar-se a pactuar pacificamente...e a "lata" gigante dos representantes do governo a continuarem a exigir mais e mais.Já não estamos de tanga, é nudismo total!!Lá fora deveriam saber de todas estas coisas e depois exigir aos políticos, gestores publicos, etc.,que paguem eles a crise, pois eles podem e devem fazê-lo.Tenho vergonha de pertencer à raça dita humana,que pactua com tantas e gigantes injustiças.Pois exigir aos outros quando se está de "barriga cheia" é tão fácil...


De Pmarques a 31 de Julho de 2010 às 12:17
Do mesmo lado...Parabéns. ..."tenho vergonha de pertencer à raça dita humana"...(humana não, portuguesa.)


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